[Cap. 8] Parabéns Paulo, Parabéns São Paulo!

(Capítulo 7: Os moradores da ocupação são surpreendidos por um reintegração de posse, e Paulo decide resistir aos policiais. Ele só não esperava se apaixonar: http://paulosaopaulo.wordpress.com/2014/01/17/cap-7-a-resistencia/)

Foto: Globo

Foto: Globo

Paulistano tem a mania de se achar melhor que todo mundo. Aliás, de certa forma isso está no brasão da cidade, “Non ducor, duco”, frase latina que significa “Não sou conduzido, conduzo”, ou na cabeça paulistana, “Carrego o Brasil nas costas”. Se você mora em São Paulo, sabe que esse pensamento tem um pouco de verdade, só a cidade de São Paulo representa 11,5% do PIB brasileiro, isso sem contar a grande São Paulo. Pra nós o Brasil se divide em algumas partes, o Nordeste é a “Grande Bahia”, o Norte é mato, o Centro-Oeste só tem soja e gado, Minas Gerais é a fábrica de queijo do Brasil, o Sul se divide entre mulheres bonitas e gaúchos “afeminados”, o Rio de Janeiro é um grande morro dominado por traficantes e em guerra com o BOPE, e o Espírito Santo? Ah, o Espírito Santo não importa, não tem nada demais lá, é como se fosse um Acre, só que todo mundo sabe que existe. São Paulo pode ser poluída, ter um trânsito caótico, ser violenta, mas é a minha cidade, e é nela que eu quero viver, e como já dizia Mario de Andrade, “Quando eu morrer quero ficar”, em Lira Paulistana:

“Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,

Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.”

Imagem: O2

Imagem: O2

Se o paulistano se acha melhor que o mundo, também sabe que o mundo está aqui. Dizem que brasileiro é um povo misturado, se for assim, São Paulo é o Brasil em forma de cidade. Aqui tem o mundo, da Itália ao Japão, da África à Bolívia, de Norte a Sul do Brasil. Gosto de dizer que São Paulo é a síntese da globalização, e na sua mais completa forma, com os prédios das multinacionais na Paulista e em avenidas como Rebouças e Faria Lima, mas também com o lado mais esquecido da universalização do mundo, com as pessoas carentes, os moradores de rua esquecidos pelo mundo do iPhone e da internet. Do aniversário de São Paulo todos lembram, mas e o de Paulo? E o dos muitos Paulos pelas nossas ruas? Ainda bem, que na vida dele existiam amigos em quem ele podia confiar, uma companheira pra não se perder, e uma mulher para amar.

A vida de Paulo passava tempos serenos, poderia estar mais confortável, como era na ocupação, mas também já esteve muito pior. No fim das contas, ele agora estava de novo nas ruas, ao seu lado, Esperança, Baltazar, Laura, Palhaço e a Luciana, a enfermeira. Eles dormiam onde dava pra dormir, mas a maioria das noites ficavam na região da Luz mesmo, talvez porque já tinham se acostumado a dormir ali, aquela era a vizinhança que estavam acostumados a ver diariamente. Enfim, a vida de Paulo estava boa para os padrões mendigos de ser. E uma coisa, era seu aniversário, e pra sua sorte tinha gente festejando isso por toda a cidade, quer dizer, as pessoas estavam aproveitando o aniversário da cidade, mas Paulo brincava que ele tinha a maior festa de aniversário do mundo, e que milhões de pessoas comemoravam ao mesmo tempo.

“Parabéns Paulo! – gritou Laura assim que acordou, e acabou acordando todo mundo – Feliz Aniversário, e a gente tem uma surpresa pra você.”

“Obrigado… Mas que surpresa é essa??”

“A gente decidiu que hoje é dia de festa, e vamos passar o dia com você!”, continuou Laura.

“Como assim?! A gente tem que trabalhar… Comida não vem de graça, e não sei vocês, mas eu quero comer hoje.”

“Então, você lembra de uma lanchonete na Vergueiro perto do Centro Cultural?”, disse Taz.

“Aham, o Bar do Seu Gabriel..”

“Então, eu lembrei que você falou dele há algum tempo atrás e ontem eu fui falar com ele, e ele vai te dar um presente: um dia de folga. Ai vai dar pra gente aproveitar o seu aniversário sem se preocupar com comida!”

“Vocês tão brincando?? É sério isso?! Obrigado mesmo gente, de verdade, você são demais!”

“E eu tenho uma ideia de onde podemos começar esse dia especial, vai ter uma apresentação de circo na Praça Campo de Bagatelle aqui em Santana, uns amigos meus do circo vão se apresentar por lá, eles fazem parte do Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo, só que começa às 11h, então a gente tem que ir direto pra lá”, sugeriu o Palhaço.

“Cara, é meio longe, até daria tempo, só que eu to com fome, e a gente tem que ir até a Vergueiro comer primeiro, e…” – Baltazar interrompeu Paulo – “Não seja por isso, eu fui lá mais cedo e peguei lanche pra todo mundo, ai da pra gente ir até Santana e comendo no caminho!”

“A gente ta esperando o que?! Vamo logo então!”, falou Paulo animado como há tempos não ficava, esse era talvez o melhor aniversário da sua vida, pelo menos por enquanto, e ia ficar ainda melhor.

Os cinco foram andando pela Av. Tiradentes sentido Norte, deliciando-se com os hot-dogs do Seu Gabriel, na vida de quem mora na rua ganhar um presente como esse é o paraíso, é como se seu chefe te desse folga e ainda pagasse o happy hour, é um sonho. Nesse caminho, quando já estavam na Av. Santos Dumont e chegando na Praça, Paulo olhou pra Laura e limpou sua bochecha que estava suja de ketchup, foi exatamente como aqueles filmes românticos, aconteceu aquela troca de olhares, um sorriso tímido da garota e o cavalheirismo do homem.

“Você sabe que eu sou muito grato por ter me salvo lá na ocupação né?”

“Não foi nada demais, só queria ajudar…”

“Não importa, esse pouco tempo que a gente ta junto, sabe que eu to até gostando um pouquinho de você? Mas só um pouquinho”, os dois deram um pequeno sorriso.

“Bobo! Mas eu não fiz nada demais, você precisava de ajuda e eu estava no lugar certo e na hora certa.”

“Você é marrenta até pra aceitar a minha gratidão, nunca vi…”

“Tudo bem, eu também to gostando de você, mas agora vamos ver a apresentação que vai começar.”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Os dois gostaram dos malabaristas, dançarinos e palhaços, deram boas risadas, aliás, os cinco sem dúvida aprovaram a sugestão de passeio do Palhaço, e por algum tempo esqueceram os problemas recentes, a perda da ocupação, eles só queriam aproveitar aquele dia. Seria o “Carpe Diem” dos moradores de rua se eles ao menos soubessem que essa expressão significava “aproveite o dia”. Não importava se eles sabiam latim ou não, eles só queriam que aquele 25 de janeiro fosse um ótimo dia, e Paulo só pensava em Laura, na garota corajosa e sensível que ela era, tomou coragem e pegou na mão dela. O pensamento era recíproco, ela apenas sorriu e segurou a mão dele. E você achando que mendigo não paquerava também.

“Eai, gostaram?? Eu já fui dupla daquele palhaço do começo, o de azul sabe, ele é muito bom..”, disse o Palhaço

“Você ta brincando, foi demais! Acho que nunca ri tanto na minha vida!”, exclamou Paulo, enquanto os outros estavam igualmente animados, e dizendo o quanto tinham gostado. O espetáculo foi bom mesmo, até Esperança deve ter gostado.

“Gente, eu sei que o Seu Gabriel disse que daria comida pra gente e tal, mas eu acho que tenho uma ideia melhor…”, disse Luciana.

“Como assim uma ideia melhor Lu?”, questionou Baltazar.

“Então, é assim, eu tenho uma amiga que vai servir comida num negócio que vai ter lá no Teatro Municipal, um tal de Chefs na Rua, é só comida boa! Só que teria que pagar, só que quem trabalha no serviço ganha comida de graça pra ela e pra família, só que essa minha amiga não tem família, cresceu órfã, ai depois.. enfim, eu falei com ela há alguns dias e ela disse que se eu quisesse levar até uns 4 amigos ela conseguia a comida lá pra gente.”

“Nossa, que demais! Eu sempre quis conhecer o Teatro Municipal, todos esses ano na rua, e eu nunca passei por lá sabia?! Vai ser perfeito!”, disse Laura já imaginando a beleza de um dos prédios mais tradicionais de São Paulo.

“Então é pra lá que nóis vamo!”, disse Paulo, feliz por levar Laura a um lugar que ela gostasse.

Nada demais no caminho até o teatro, atravessaram os Champs Élysées, ops, os Campos Elísios, bairro nobre do centro São Paulo, até porque qualquer bairro era nobre pra eles, enfim, demoraram uns 40 minutos mais ou menos a pé, óbvio, mas é bem capaz de um carro ter demorado quase o mesmo tempo para fazer o percurso, também com São Paulo em festa, quem não quer aproveitar o último final de semana das férias curtindo um pouco a cidade né.

Chegando ao Teatro encontram o esperado: uma multidão. Mas o que importa um mundo de gente quando só se tem olhos pra um pessoa, Laura admirava o Teatro Municipal e sua arquitetura clássica que ela não conhecia e nem sabia nada sobre, mas mesmo assim estava deslumbrada, enquanto isso Paulo admirava Laura. Até aqui já deve ter dado pra perceber que Paulo estava apaixonado por ela, e que Laura provavelmente sentia o mesmo.

Foto: Inauguração do Teatro Municipal - 1911

Foto: Inauguração do Teatro Municipal – 1911

“É lindo… Ainda mais bonito do que eu imaginava.”, disse Laura.

“É mesmo, meu aniversário ta cada vez melhor.”

“Parabéns Paulo.”

“Obrigado, e fico feliz que esteja aqui…”

“Eu tam…” – ela não terminou a frase ele deu beijo nela.

“Esses jovens de hoje não perdem tempo mesmo em?!”, disse Baltazar.

“Na minha época as garotas ficavam caidinhas no palhaço aqui.”

“Ah, para com isso vai, você nunca teve jeito com as mulheres. Aposto que você era o São Jorge da turma: só pegava dragão.”

“Cala boca Taz! – os dois riram – Você não sabe de nada!”

“Pessoal, a gente tem que comer, esqueceram??”, disse Luciana

“Verdade… Os dois ai, vamo comer, depois vocês terminam com essa pegação ai!”, disse Taz.

“A gente já vai!”, disse Paulo

“Vish… Vamo comer logo antes que esfrie, esses dois ai vão ficar um tempinho ali ainda… Bom Apetite!”

“Fala isso pra eles também Taz.”, brincou o Palhaço.

“Fica quieto vai.”, todos riram.

Eles passaram o resto do dia indo a atrações de rua e em lugares com entrada gratuita. Paulo e Laura… Precisa mesmo explicar?

É… Foi um aniversário e tanto.

[Cap. 7] A Resistência

(Capítulo 6: Começo de ano é igual pra todo mundo, inclusive pra quem mora na rua, e na dificuldade, Paulo conhece um pouco melhor as pessoas que ele divide seu espaço: http://paulosaopaulo.wordpress.com/2014/01/13/cap-6-cronicas-das-vidas-alheias/)

Foto: SINTRAJUS

Foto: SINTRAJUS

Uma ocupação de sem-teto sempre vive na linha tênue entre legalidade e moralidade. Na teoria, eles estão errados, invadiram um lugar de propriedade privada ou estatal, suas instalações são feitas no melhor estilo gato, (gatoágua, gatoluz, gatotudo), tudo ali dentro é a tradução da mais pura e simples ilegalidade, mas também da imoralidade. Sem-teto não invade um lugar em que tem gente morando, sem-teto não expulsa o dono do lugar pra ele poder dormir, sem-teto ocupa lugar abandonado, sem-teto pode até ser ilegal, mas imoral é deixar dezenas, centenas de locais abandonados na cidade enquanto também temos pessoas abandonadas morando nas ruas por ai.

É comum escutar de certas pessoas que esses sem-teto são um bando de gente preguiçosa, que não trabalha, ou que não quer nada, vive às custas do Estado. Não é bem assim. Não é nada disso pra falar a verdade. Sem-teto é trabalhador, aliás, está na sigla do principal movimento, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), eles são um movimento organizado, e não é “um monte de bandido”, é um monte de gente trabalhadora que não tem condição de pagar um aluguel que consumiria todo o seu salário, é gente que quer um lugar pra chamar de seu. E com os moradores da ocupação onde Paulo morava não era diferente, ali não tinha ladrão, não tinha drogado e nada que fosse uma prática ilegal, aliás, assim como em todas as ocupações dos trabalhadores sem-teto, eles tinham um quadro de regras severas, e que caso não fossem respeitadas, levaria a expulsão do infrator. Na ocupação do Paulo, só tinha acontecido um caso desse tipo, mas foi antes de Baltazar trazer Paulo pra amorar com ele.

Enfim, os moradores da ocupação eram de certa forma uma família, se ajudavam quando alguém precisava, e também brigavam – eles são uma família, não um grupo de anjos. Mas entre um bate boca e outro, a convivência era amigável, só que às vezes faltava comunicação, cada um tinha seu horário, gente que trabalhava de madrugada, gente que saía cedo e voltava tarde, enfim, a rotina do prédio era bem agitada. Até então, isso não tinha sido um grande problema, até que o “deixa que eu deixo” aconteceu com um envelope na entrada do prédio.

Foto: Manoel Marques

Foto: Manoel Marques

Um envelope de papel pardo que parecia inofensivo, mas era uma ordem de despejo. Se você entende um pouco dessas burocracias judiciais sabe que ordem de despejo tem que ser entregue pessoalmente ao morador do local, mas o oficial achou que estava de bom tamanho passar o bilhete por baixo da porta e seguir andando, se o questionassem diria que entregou a qualquer morador: seria a palavra de um homem da lei contra a de alguém fora dela. Quando finalmente o envelope foi aberto por Baltazar, que quando voltava do seu dia de trabalho na carrocinha teve curiosidade sobre o conteúdo depois de ver o envelope jogando no canto da portaria. Era tarde demais:

“Paulo, que dia é hoje?”

“Quinta, por quê?”

“Não, que dia do mês é hoje??”

“17, eu acho, o que que foi, ta com algum problema Taz?”

“Eu não, todos nós. Isso aqui é uma ordem de despejo, e o dia do despejo é amanhã de manhã.”

“Fodeu… – bastou uma simples palavra para expressar toda a situação que estava prestes a acontecer – a gente precisa avisar todo mundo! O que a gente vai fazer?! Taz, o que a gente vai fazer?!?!”

“Entrar em pânico não vai ajudar em nada. Acorda todo mundo, isso aqui é uma emergência!”

Os dois foram indo de quarto em quarto, acordando todo mundo e juntando todo mundo. Paulo entrou no antigo quarto do Bolívia e tinha uma garota com uns 20 e poucos anos  lá, ele nunca tinha visto:

“Nem sabia que tinha gente morando aqui já… Não importa, lá pra baixo agora, rápido!”

Em poucos minutos todos estavam reunidos no pátio e Baltazar explicava a situação:

“Isso aqui é uma ordem de despejo… pra gente. Aqui ta dizendo que a gente tem que sair até amanhã de manhã, senão a gente vai ser retirado a força, vai vim polícia e tudo, e ai não vamos ter direito a nada do que tiver aqui dentro, eles vão destruir tudo. A gente tem duas opções, juntar tudo que conseguir e abandonar o lugar, ou ficar e resistir.”

A confusão começou, uns queriam sair o quanto antes, tinha gente chorando, outros gritavam coisas do tipo, “quero ver quem vai ser o homem que vai me tirar daqui!”, enfim, a notícia do despejo não poderia ser mais impactante.

“Então Paulo, o que vai ser?”, perguntou Baltazar.

“Eu já morei muito tempo na rua, não posso voltar pra lá, simplesmente não posso!”

“Eu sei quando alguém está tão vidrado em alguma ideia, não vou te convencer de qualquer coisa. Eu tenho que proteger o meu irmão também. Se eu tivesse a sua idade, e não a minha maturidade, provavelmente faria a mesma coisa… Eu to muito velho pra essas coisas.”

“Taz, só me faz um favor, leva a Esperança com você, eu não sei o que vai acontecer comigo, e não quero que ela se machuque.”

“Claro, pode contar comigo, só me ajude a tirar as minhas coisas daqui e colocar na carroça, depois é você e Deus, eu não posso ficar ao seu lado nessa hora.”

A movimentação era intensa na ocupação, gente tirando as coisas de lá pra conseguir salvar o que conseguisse, gente rezando, gente chorando… A Luciana enfermeira decidiu abandonar, junto com o Palhaço, os dois ficaram com Baltazar. O Baiano e o Manoel decidiram ficar. Cena de filme? Não, longe disso, não imagine aquele clímax, com música acelerada de fundo, era uma tensão silenciosa, uma noite que demorou a passar, ninguém ali dormiu, depois da grande movimentação, pouco se ouvia dos que ficaram. Ouviram as primeiras sirenes da polícia se aproximarem, e alguns já começavam a se agitar, aquela não era uma manhã comum. Tinha até um ou outro jornalista, nada de Globo, mas um jornal pequeno aqui e ali, cobrindo a história de mais uma reintegração de posse.

Foto: Peter Leone/G1

Foto: Peter Leone/G1

Os policiais se alinharam em frente ao prédio e com um megafone o capitão disse:

“Ninguém quer se machucar, é melhor vocês saírem pra não ter transtorno. Vocês têm 5 minutos.” – O capitão virou para o cabo e disse: “Se quando a gente entrar lá, ainda tiver gente,  eu não quero nem saber, pode descer o cacete nesses caras.”

“Capitão, com todo respeito, vai dar merda isso ai.”

“Merda vai dar se o senhor não fizer o seu trabalho.”

Manoel e o Baiano saíram do prédio, entenderam que ali era um jogo de azar, ou saíam livres e duros, ou ficavam e saíam sabe-se lá como e em que condições. Os outros até pensaram em sair, no caso de Paulo, batia mais forte um sentimento de orgulho, um pensamento em defender o que é seu – o que achava que era seu.

Os cinco minutos acabaram. Os policiais entraram. A ação foi rápida, era ir vasculhando a área e expulsando os moradores que resistiam na base da cacetada e na ameaça de uma arma apontada pra cara. Paulo viu que não tinha chance de resistência, o jeito era fugir, mas uma rasteira o derrubou, e levava cacetada atrás de cacetada. Até que a garota que ele tinha visto mais cedo empurrou o policial que tropeçou e caiu, Paulo levantou, e saiu correndo puxando a garota pela mão. Tudo estava acelerado. Conseguiram sair do prédio sem mais surpresas, e correram dali, encontram Baltazar e os outros na esquina e seguiram pela rua, sem destino, e agora, sem pressa.

Eles foram interrompidos por um jornalista um quarteirão depois, ele queria gravar uma pequena entrevista com o grupo, e eles aceitaram: Paulo foi o único que falou, mostrou as marcas das cacetadas e contou o acontecido:

Repórter: “O que aconteceu na reintegração?”

Paulo: “O aconteceu o que todo mundo sabia que ia acontecer, chegaram arregaçando tudo, e ameaçando todo mundo que tava lá dentro. A ordem de despejo nem foi entregue na mão de ninguém, ai a gente foi pego de surpresa, nem teve como nóis salvar muita coisa, pegamo o que deu e agora é seguir em frente né…”

Repórter: “Muito obrigado senhor, e ficamos aqui com o Boletim de Notícias, mais informações a qualquer momento. Fiquem ligados. Até Mais.”

O grupo agora vagava por São Paulo, a cidade que acolhera Paulo por tanto tempo poderia ser de novo chamada de lar. Paulo estava bem, sentia uma dor um pouco maior na cicatriz de onde levou o tiro há tempos atrás e tomou uma cacetada, mas estava bem. Eles acabaram não indo muito longe, ficaram atrás da Estação da Luz onde ficam vários moradores de rua e viciados, mas eles não se importavam com o cheiro, e ficaram ali mesmo, até porque não tinham pra onde ir.

Foto: Alex almeida

Foto: Alex almeida

“Você é o Paulo né? Meu nome é Laura, muito prazer. E de nada viu.”, disse a garota nova.

“Ah, desculpa, valeu por ter me salvado lá dentro. Sou eu sim, muito prazer.”

Ela foi de “a garota do quarto do Bolívia”, para “a Laura que ajudou o Paulo”. Para Paulo ela era uma desconhecida, e agora uma heroína. Não é bem o clichê do mocinho salvando a garota bonita, aliás, é quase o contrário. Mas estamos em São Paulo, quem disse que as coisas são um conto de fadas por aqui.

Ele se interessou por ela. E vice-versa.

[Cap. 6] Crônicas das Vidas Alheias

(Capítulo 5: Paulo enterra seu pai e vive a experiência do Natal, ou melhor, a magia do Natal ao lado de Esperança, Baltazar e uma garotinha: http://paulosaopaulo.wordpress.com/2013/12/18/cap-5-epitafio-de-natal/ )

Foto:  Daigo Oliva/G1

Foto: Daigo Oliva/G1

Começo de ano é sempre igual, tem gente viajando, gente de férias, gente que já viajou e voltou parecendo um bife bem passado, gente que se inscreve na academia, porque acha que engordou nas festas de fim de ano – realmente engordou – mas também tem gente que não tira férias, e a vida de quem mora na rua, ou é realmente pobre, é mais próxima desse último exemplo. Não existe férias, feriado, ou fim de semana na rua. Todo dia é dia de trabalhar, quer dizer, é dia de tentar se sustentar. Morador de rua não passa o réveillon na praia, não pula sete ondinhas, não veste branco, não coloca sabe lá o que na carteira pra dar sorte, mas sabe como é, quem mora na rua também quer um ano melhor, até porque “pior do que ta não fica” diria o ilustre Tiririca, mendigo também espera um ano com saúde, felicidade – na medida do possível – e um pouco mais de dinheiro também não faria mal… É, começo de ano é sempre “igual”.

Mesmo com todas as dificuldades, Paulo até que teve uma boa virada de ano. Ele, e os outros moradores da ocupação foram pra rua, confraternizar com quem ia passar sozinho, a maioria ali já passou as festas de fim de ano sozinho, sabem o quanto isso é ruim, mas na meia noite Paulo se afastou do grupo, queria ficar um pouco sozinho, quer dizer, ele nunca está sozinho, Esperança não desgruda do seu companheiro. É aquele momento clichê de reflexão do ano que passou, Paulo tinha passado por altos e baixos, tomou um tiro, ganhou de presente da vida a companheira mais fiel de todas, conheceu Baltazar e se tornou seu grande amigo, arranjou um local pra morar, conheceu seu pai, perdeu seu pai… Convenhamos, foi um ano bem pouco comum na vida de qualquer pessoa. 2013 foi ano pra deixar marcas na vida de Paulo, e de São Paulo também, um novo prefeito, manifestações gigantes, polêmicas com corredores de ônibus, e ainda maiores com carteis no metrô e propinas de fiscais… Convenhamos, São Paulo também teve um ano e tanto.

Mais ano, menos ano, um dia a mais, um dia a menos e Paulo seguia (sobre)vivendo. Mas tinha um problema, muitos dos que moravam na ocupação estavam com dificuldades até para sobreviver, muita gente sem emprego, e pedir esmola no começo de ano não é lá muito rentável, porque as pessoas são generosas enquanto têm dinheiro, com o 13° inteiro no bolso, com o espírito natalino no coração, e nada na cabeça, porque se tivessem alguma coisa não ficariam tão estouradas no cartão de crédito, ai chega janeiro com IPVA, IPTU, Matrícula da escola, e claro, a fatura do cartão. Sem dinheiro nem pra elas mesmas, você acha que alguém está disposto a dar qualquer coisa pra um mendigo?! E você achando que morador de rua não era afetado pela economia.

Enfim, não é fácil pra ninguém, então Paulo e Baltazar tentaram ajudar um pouco os amigos da ocupação, então a cada dia alguém que não tinha emprego ia pegar papelão por ai e o que conseguissem era dividido entre os três. E foi assim que Paulo conheceu um pouco melhor cada um daqueles que ele dividida o lar. Eles fizeram um sorteio pra saber quem ia com eles primeiro, e o sorteado foi o Baiano.

Foto: Pimp My Carroça

Foto: Pimp My Carroça

Eles saíram da ocupação e foram andando pela Av. Tiradentes sentido Norte, o Sol forte de Janeiro em São Paulo era praticamente um castigo que os seguia pelo caminho. Falavam-se pouco, em uma pausa ou outra até jogavam conversa fora, falavam sobre o calor, sobre a cidade, mas nada demais, no fim da tarde, já voltando pra ocupação, Paulo já estava cansado do silêncio:

“Cara, você é baiano mesmo?” – perguntou Paulo quase fazendo graça da pergunta.

“Não, sou de Rosário, uma cidade pertinho de São Luís.” – respondeu o Baiano, ou melhor, o Vithor Luís.

“Ah cara, é que pra gente de São Paulo o Nordeste é todo feito de Bahia, então é tudo baiano” – os três deram risada, mas Paulo interrompeu a risada – “Mas pera, São Luís do Maranhão né? Não é lá que ta tendo ‘vários problema nos presídio’? Uns caras morrendo e tal??”

“É lá sim, e meu irmão ta preso no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, é um dos piores, teve gente perdendo a cabeça – literalmente. Eu nem sei se meu irmão ta vivo ainda, e tipo, ele pode ta entre os que mataram ou os que morreram. Ele é meu irmão gêmeo, nóis teve uma infância humilde, nosso pai levou a gente cedo pra trabalhar na roça, mas meu irmão nunca foi muito do trabalho, ele queria ficar rico, viver de luxo sem trabalhar sabe?”

“Todos já tivemos um pensamento assim uma vez na vida…”, disse Baltazar

“Pois é, e ele conseguiu, quer dizer mais ou menos, ele batalhou muito pra chegar aonde chegou, e passou por cima de muita gente também, ele virou um dos líderes do tráfico da região, mas no Maranhão você só chega em cima se for amigo de quem tiver em cima de você, e acima de todo mundo, temos os Sarney. Meu irmão conheceu um sobrinho do reizinho – é assim que chamam o José Sarney – e não perdeu a oportunidade. Mas é o que dizem, quem te levanta, pode te derrubar, meu irmão pagou pra ver, ele tentou ‘passar a perna’ no tal do sobrinho. Se fodeu. Meu irmão quase morreu de tanto apanhar, e acabou na cadeia, e vai ficar por lá até morrer definitivamente. Eu fugi com meu pai pra São Paulo pra não morrer também. Meu pai morreu há algum tempo, e eu tenho tentado sobreviver desde então.”

“Nossa. E você tem como saber se seu irmão ta vivo ou não? Telefone, carta, qualquer coisa?”

“Não, não tenho mais família lá, e to juntando tudo que posso pra voltar lá um dia e quem sabe encontrar meu irmão… vivo…”

Ilustração: Carlos Latuff

Ilustração: Carlos Latuff

Assim ficou o silêncio de mais alguns minutos até ele descarregarem tudo na cooperativa de lixo e voltarem pra ocupação. O dia tinha rendido bastante até, a ajuda do Baiano fez eles ganharem até mais que o normal, mesmo dividindo por três. Mas a cada dia era um novo ajudante pra catar lixo, no segundo sorteio a escolhida foi Luciana, a enfermeira. Só que no decorrer do dia descobriram que ela não era de verdade uma enfermeira, na verdade, não tinha nem terminado o Ensino Médio. Você acha que algum deles se preocupou? Nada. De que importa ter diploma e não saber nada que nem uns e outros em hospitais por ai. Eles deram algumas risadas quando ela contou como aprendeu o que sabia: ela se fingia de machucada pra ver o que faziam com ela, com o tempo foi aprendendo tanto que já era melhor que muito socorrista por ai. Mais um dia, mais uma história, menos trágica, mas igualmente surpreendente.

Na ocupação não tinha só brasileiro não, tinha gringo também, quer dizer, morava lá um português e um paraguaio – mas que todo mundo insistia em chamar de Bolívia – e eles foram os sorteados no terceiro e quarto dia. Manoel – que na verdade se chamava Fernando – era um português, mas que de lusitano só tinha o sotaque, era um brasileiro de sangue, mas as piadas eram inevitáveis, e incontáveis também. Todo mundo achava que ele era padeiro, só que o que ele era de verdade era traficante. Mais ou menos, ele trabalhava pro tráfico carioca como mula – aquelas pessoas que transportam droga de um lugar pro outro sem chamar atenção da PM. Juntou dinheiro suficiente pra fugir de lá, e veio pra cá: se livrou do tráfico, mas também ficou sem dinheiro. Pensou em voltar várias vezes, mas sabia que se voltasse, era um homem morto, então fez o que pode pra se estabelecer em São Paulo, faz bicos quando acha algum, já fez um pouco de tudo, e vai continuar fazendo, seja catar papelão seja carregar caminhão. Ele foi parar na ocupação com a ajuda de Baltazar, eles se conheciam há algum tempo, Manoel até chegou a conhecer Clarice.

O sorteado do quarto dia foi o paraguaio Bolívia, pode até parecer estranho, mas ele realmente parecia um boliviano, usava aquelas mantas no ombro e tudo, mas ninguém com certeza qual era o seu passado, nem seu nome sabiam direito, e não foi um dia de assistência de Paulo e Baltazar que fez ele falar muita coisa, só respondia vagamente às perguntas, e pouco falou, mas ajudou bastante. Até que Paulo olhou bem o paraguaio e o reconheceu. Sim, era o muambeiro da 25 de Março, ele tinha até uma lojinha lá, mas foi preso pela polícia, e não foi uma vez só não. Quando “desmascarado” o imigrante – que por sinal era ilegal – não fez nada a não ser ficar em silêncio. Ao fim do dia de trabalho, o Bolívia foi para o seu quarto e de lá não saiu.

No dia seguinte, era vez de mais um ir ajudar Paulo e Taz na sua rotina de carroceiros, e dessa vez tinha sido sorteado o Palhaço, que era de verdade um palhaço, quer dizer, já trabalhou como palhaço em um circo andarilho do Brasil, mas agora era só um senhor que alegrava um pouco a vida dura de todos ali, e que facilidade ele tinha em entreter as crianças. Os três estavam saindo e passaram pelo quanto do Bolívia: vazio. Nem rastro do antigo morador. Eles sabiam por que ele tinha sumido, por isso só ficaram no, “Tem um lugar sobrando aqui em baixo”, então foram ao trabalho pela cidade.

“Taz, eu já te contei por que eu virei um palhaço?”

“Porque você faz piada de tudo!”, todos riram.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

“É sério, eu virei palhaço, porque gosto de ver os dentes das pessoas.”

“Cara, quem gosta de ver dente é dentista, não palhaço”, Paulo fez todos rirem com o comentário.

“Muito engraçado, mesmo, mas eu virei palhaço porque acho que no mundo a gente tem que sorrir. Sorrir pra tudo sabe? Não to falando de dar risada de uma piada ou trapalhada, to falando de sorrir pra vida, de sorrir pras pessoas, mesmo aquelas que não te querem bem. As pessoas que tem esse dom são as que eu mais admiro. Virei palhaço pra ser assim também, pra sorrir com a vida.”

“Muito bom, mas… Você conseguiu ‘chegar lá’?”

“É isso que eu queria falar: não, e provavelmente nunca vou conseguir, mas é isso que torna a vida interessante, essa busca, essa curiosidade, essa incessante vontade de conseguir. Hoje eu vejo o quão egoísta eu era, EU queria sorrir, pra EU ser feliz, pra EU viver bem, mas a vida não é pra ser vivida em 1ª pessoa, a vida nasceu pra ser compartilhada, replicada, a vida nasceu pra dar vida. E eu acho que dar vida é espalhar um pouco de felicidade por onde eu passo, é deixar o sorriso no rosto de uma criança, é tornar a vida sofrida em algo mais aturável. Edgar Alan Poe, dizia que os olhos são as janelas da alma, só que ele era meio macabro, eu prefiro dizer que os dentes são a porta da alma, e é uma via de mão dupla, você pode dar e receber. Eu gosto de ver a alma das pessoas em seus sorrisos, em ver a sua essência, e gosto mais ainda quando posso fazer alguém expressar essa natureza na sua mais pura forma. Por isso eu virei palhaço.”

Não da pra saber se foi a intenção do palhaço, mas eles fez os dois sorrirem, e eles realmente se sentiram bem fazendo aquilo. E aquele dia foi melhor que os outros, nem conseguiram pegar tanta coisa assim, mas se sentiam incrivelmente bem. Sorrir é mesmo um presente divino, mas fazer sorrir é um dom. E você, já sorriu hoje?

[Cap. 5] Epitáfio de Natal

(Capítulo 4: Paulo conhece seu pai, mas a vida de pai e filho dura muito pouco: Juca morre em um motim na prisão: http://paulosaopaulo.wordpress.com/2013/12/13/cap-4-familia/)

Foto: Espaço Alternativo

Foto: Espaço Alternativo

Ao menos Paulo pôde enterrar o pai. Não chorava mais. Paulo só ficou estático, passou o tempo todo do simples velório abraçado com a Esperança sem dizer uma só palavra. Os únicos presentes na ocasião eram Paulo e Baltazar, e um padre que fez uma oração bem simples e rápida, parecia que ele estava só de passagem, que não se importava muito com um presidiário morto em um motim.

“Pai Nosso, que estais…”

Se bem que a opinião pública glorificou os dois policiais heróis, mesmo tendo confirmado que houve sete mortos com tiros nas costas pelas armas dos policiais. Ninguém pode alegar que estava se defendendo dando um tiro nas costas de alguém, mas mesmo assim os policiais foram enterrados com honras militares e ganharam uma placa de honra no quartel pelos serviços prestados à sociedade. E os presos? Eles foram enterrados. E só. E quanto às denuncias de tortura e superlotação no presídio? O povo ama heróis, e heróis fazem o prefeito ser reeleito, e não um monte de presos executados covardemente.

“Amém!”

O padre terminou Pai Nosso e foi embora. Paulo assistiu ao enterro de fato e foi embora. E por alguns meses não tocou no assunto com Baltazar. Na verdade, quando seu pai vinha em sua cabeça ele logo pegava alguma bebida e enchia a cara para esquecer dos problemas. Baltazar conseguira “curar” Juca da bebedeira, agora cuidava de Paulo da mesma maneira.

Demorou um pouco, mas Paulo estava mais controlado, o fantasma da bebida ainda o assolava, mas o olhar coitado de Esperança e os incontáveis pedidos de Baltazar o impediam de voltar para o buraco. Paulo não bebia mais, quer dizer, não era mais um alcóolatra, mas ainda não tinha superado o problema de seu pai, apenas enterrado o problema, e as coisas não se resolvem dessa maneira. Baltazar sabia disso, mas eles estavam próximos do Natal, e mesmo que não comprem um monte de presentes o Natal sempre traz uma melhora ao mundo dos moradores de rua - e o problema foi deixado de lado naquele momento. As pessoas ficam mais generosas nessa época do ano. E não há lugar melhor em São Paulo para vivenciar o Natal do que a Paulista: é uma boa oportunidade de ganhar algumas esmolas.

A ocupação do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) em que eles moravam ficava bem perto da Estação da Luz, e a Avenida Paulista não é exatamente do lado da casa deles, são quase 5km de caminhada, mas os trocados que eles ganhavam valiam a pena pela longa jornada de ida e volta. Mas eles tinham outro problema, as pessoas não se comoviam o suficiente com um homem de meia idade e um jovem de vinte e poucos anos pedindo dinheiro. Aliás, as pessoas muitas vezes dão muito mais dinheiro para os “bixos” das universidades que mendigam no farol do que para os mendigos, e não dão para os moradores de rua com a desculpa de que vão gastar em drogas e bebidas. Desse jeito até parece que as “cervejadas” das faculdades patrocinadas pelo dinheiro do farol servem suquinho de maça e misto quente, e que universitário não bebe ou não faz nada de errado. Hipocrisia, um dos grandes defeitos do ser humano.

Enfim, os moradores de rua mais experientes sabem que não conseguem dinheiro fácil assim, então eles têm algumas técnicas para uma maior “arrecadação de fundos”. E Baltazar já conhecia um pouco melhor essas habilidades, e passava sua experiência para Paulo:

“Paulo, se a gente chegar e pedir a gente não vai conseguir nada, a gente tem que ser mais convincente.”

“Você diz tipo pegar uma cadeira de roda ou umas muleta e fingir que é deficiente?”

“Não, isso ai não é legal não, e se te pegam na mentira você ta ferrado. A gente precisa de dinheiro não precisa? Então vamo fazer as pessoas entenderem a nossa necessidade e nos ajudarem.”

“E como a gente faz isso??”

“A Esperança. Todo mundo gosta de cachorro, e ninguém resiste a uma carinha de dó desses bichos. A gente pega um papelão e escreve assim: ‘Eu vou passar o Natal no banco da praça, e você, já decidiu quantos pernis via ter na sua ceia?’ Ai a gente coloca a Esperança do lado da placa quietinha e ela faz o trabalho dela comovendo o pessoal que passar.”

Foto: O Grito do Bicho

Foto: O Grito do Bicho

“Nossa Taz – esse era o apelido do Baltazar – essa ideia é demais! Você deveria fazer aquelas propagandas que a gente nos pontos de ônibus e tal, ia ganhar um bom dinheiro.”

“Não é nada demais, e eu aprendi a chamar atenção assim com um antigo conhecido meu, o Douglas, ele era um publicitário que faliu quando o sócio deu um golpe nele. Ele era um cara legal, mas enfim, vamos fazer isso logo pra poder ganhar alguma coisa hoje.”

Eles arranjaram um pedaço de papelão e fizeram o que tinham planejado. Só que não deu tão certo quanto imaginaram, acontece que os enfeites dos prédios chamavam tanta atenção, que poucas pessoas olhavam para a placa. A “estratégia de marketing” não tinha sido bem desenvolvida, as “condições do mercado” até eram favoráveis, mas a “veiculação da propaganda” e o “contato com o público-alvo” não foram ideais. Os três – Paulo, Baltazar e Esperança – tinham começado a pedir esmola perto do metro consolação, ai eles vieram descendo a Paulista, pararam por alguns minutos na frente de um prédio ou outro, ficaram um pouco mais na frente do Parque Trianon e continuaram descendo, até que encontraram uma garotinha na esquina da Paulista com a Alameda Campinas, na calçada do Banco Safra.

Ela deveria ter uns 10 anos no máximo, estava com um vestido de branco e umas asinhas de mentira, e com o cabelo preso. Tinha olhos claros, e um cabelo claro também, não era exatamente loiro, talvez um castanho claro ou coisa do tipo. A menina só ficava lá sorrindo e agradecendo quem dava algum dinheiro, estavam tirando até fotos dela. Só que chegou alguém gritando – “ladra, essa menina roubou o vestido da apresentação!” – a garotinha saiu correndo, só que tinha chovido mais cedo naquele dia, e ela caiu numa poça, sujou todo o vestido. Ela o arrancou do corpo e ficou com a camiseta e a bermuda que estava por baixo. E saiu em disparada pela Paulista em direção ao parque.

Foto: FolhaPress

Foto: FolhaPress

“Paulo, sabe o que é melhor pra esmola do que só um cachorro com cara de dó? Uma garotinha e um cachorro com cara de dó! Vamo atrás dela!”

Eles a alcançaram quando ela entrava no Parque Trianon, a seguraram, e começaram a conversar:

“O que vocês querem?! Eu não consegui dinheiro nenhum!”

“A gente quer a sua ajuda.” – disse Baltazar

“Como assim??”

“Você precisa de dinheiro, a gente também, só que sozinho, não vamos conseguir nada. A gente tem uma cachorrinha, e você é uma criança, se vocês se juntarem todo mundo vai dar esmola.”

“É… Pode dar certo…” – ela ainda estava meio desconfiada e com medo de que a tivessem seguido por causa da roupa.

“Vocês duas andam por ai pedindo o dinheiro, e tenho certeza que vão conseguir bastante. Enquanto isso eu o meu amigo Paulo, a gente fica dando cobertura pra ver se alguém aparece te perseguindo ou se algum policial encrencar. No final das contas agente divide o dinheiro, e todo mundo sai ganhando.”

“Fechado, mas só faço se for meio a meio!”

Paulo e Baltazar se olharam, e sabiam que não tinham outra alternativa, então acabaram a aceitando a proposta. E dessa vez a “campanha publicitária” rendeu bons “lucros”. Em pouco mais de uma hora conseguiram 30 e poucos reais – Papai Noel estava generoso naquele ano!

Depois de mais algum tempo, a menina decidiu ir embora, porque já tinha escurecido e o número de pessoas havia diminuído. Dividiram o dinheiro e só para complicar as contas a soma tinha dado um número ímpar, (Baltazar era o mais “entendido” de matemática dos três, e fez a divisão), cada lado ficou com R$27,45, e sobrou um centavo que acabou ficando com a garotinha. Ela voltava sozinha pra casa – eles não perguntaram onde ela morava – e eles percorriam sua pequena jornada até a Estação da Luz. E vinham conversando, e falando que voltariam no dia seguinte pra tentar conseguir mais esmolas, e pensando que até poderiam encontrar a menina de novo.

“Pensando bem, ela foi corajosa em confiar em dois caras que ela nunca tinha visto”, disse Paulo.

“A gente é que foi corajoso, ela tava com todo o dinheiro e com a Esperança, imagina se ela rouba a gente?!”, os dois deram risada.

“Mas sabe, é engraçado como uma garota que a gente conheceu sem querer nos ajudou a conseguir tanto dinheiro, e agora ela pode estar em qualquer lugar, a gente pode encontrar ela amanhã, como também pode não encontrar nunca mais. Tipo, ela passou pela vida da gente e fez uma baita diferença em tão pouco tempo…” – disse Baltazar

Foi involuntário para Paulo pensar em seu Pai, e na ferida não cicatrizada que foi a sua morte. Mas o pensamento era diferente, já fazia um bom tempo desde a morte e o enterro, Paulo não tinha mais raiva ou desespero, mas sim um perdão. Um carinho de uma única visita a penitenciária, uma ideia de compreensão da situação que seu pai estava quando o abandonou.

Juca pode ter vivido apenas os minutos de uma breve visita ao lado de seu filho, mas a sua marca seria para sempre, ele estava apenas de passagem na vida de Paulo, mas o fez entender que certas coisas são pra sempre e outras não. Paulo finalmente parava de sofrer com a morte de seu pai, e também começava a enxergar que deveria aproveitar o tempo com as pessoas – e bichos de estimação – que estivessem ao seu lado.

Simplesmente viva enquanto é tempo. Alguns podem dizer que esse “epitáfio” de Paulo só aconteceu por causa daquela garotinha, outros que Baltazar o fez enxergar as coisas por outro lado, mas por que não dizer que foi o espírito natalino? Talvez, mesmo com toda essa “comercialização” do Natal, um pouco de sua “magia” e alegria ainda existam nas pessoas, e pode ser em qualquer pessoa.

“Feliz Natal, Taz. Feliz Natal, Esperança.”

“Feliz Natal.”

Foto: FolhaPress

Foto: FolhaPress

[Cap. 4] Família

(Capítulo 3: Paulo conhece Baltazar, um homem aparentemente comum, mas está bem longe disso. no final do dia, enquanto observa São Paul0, o morador de rua tem a maior surpresa de sua vida: http://paulosaopaulo.wordpress.com/2013/12/09/cap-3-outra-historia/)

Foto: Julia Chequer/R7

Foto: Julia Chequer/R7

“Como assim?!” – perguntou o surpreso morador de rua.

“Você é filho do Juca. Eu conheci ele há algum tempo.”

“Pera um pouco, como sabe que esse cara ai é meu pai?”

“Suas costas. Você tem a marca de nascença dele. Eu sei mais da sua história do que você imagina. Só que agora não é o momento de você saber tudo o que aconteceu, e eu não sou a pessoa certa pra te contar tudo. Seu pai é que tem que te contar o que aconteceu.”

“Eu quero saber onde meu pai ta! Agora!”

“Eu não tenho certeza. Eu conheci seu pai há muito tempo, mas lembro bem dele. Foi no dia em que fui buscar meu filho no orfanato e não encontrei ele.”

Baltazar contou que ele foi ao orfanato Madre Mazzarello em Itaquera, seu filho estava lá, pelo menos deveria estar. Quando chegou lá recebeu a notícia que ele tinha fugido. Não era possível, como uma criança de 11 anos escapa e ninguém percebe? Baltazar entrou em desespero, não sabia se era raiva, remorso, o ponto é que ele era um pai sem filho. Sem filho não há pai. Ele estava fora de controle. E saiu enfurecido do abrigo. Não sabia pra onde ir, seguiu pelo o que hoje seria a Jacu Pêssego, virou algumas ruas e logo estava perdido. Baltazar e sua carrocinha vagavam pelas ruas sem destino, mas com o objetivo de encontrar Vinícius, seu filho. “Uma dica, nunca se perca em Itaquera, aquela não é a melhor vizinhança do mundo”. O aviso bem humorado de Baltazar é compreensível: ele foi assaltado. Sim, um catador de lixo foi assaltado.

“Eu nem acreditei, vieram dois caras com uma faca e queriam a minha carrocinha, eu resisti. Eles disseram: ‘você não é daqui não né tio?’, preferi não responder. Um dele disse rindo: ‘Bem vindo à ZL!’, enquanto o outro veio pra cima de mim. Eu tentei me defender, mas acabei me ferindo, foi ai que seu pai apareceu. Ele era um capoeirista ou coisa parecida, só sei que ele lutava pra caramba. Em questão de segundos, um dos ladrões tava com a boca sangrando e outro correndo dali. O outro tomou mais alguns socos e chutes e preferiu abandonar a briga. É Paulo, seu pai me livrou de um assalto sem nem mesmo nos conhecermos.”

Paulo ouvia tudo aquilo sem piscar. Parecia uma criança. Voltava a ser aquele menino do orfanato. Tantas histórias que ele inventava pra impressionar o seus colegas, era uma necessidade de tentar justificar a ausência de seu pai. Para o menino Paulo seu pai era espião, astronauta, ator e até soldado, cada profissão com uma história, fruto da imaginação fértil de uma criança ociosa e viciada em filmes. Algumas histórias era quase uma cópia desses filmes, como quando Paulo inventou que seus pais eram justiceiros internacionais, mas que mais pareciam um Bonnie e Clyde, era de se esperar histórias assim de uma criança que assistiu a todos os clássicos da coleção do Tio Jefferson. Mas a verdade era uma só: aquele menino criativo não se importaria com a profissão de seu pai, desde que ele estivesse ali para ser um pai.

“Eu e seu pai nos tornamos grandes amigos. Não sei quanto tempo ficamos juntos, talvez um ou dois anos, mas você sabe que o tempo passa mais devagar pra quem mora na rua. Uma noite gelada parece um inverno inteiro no polo norte, e uma tarde abafada de verão é como passar uma temporada toda no Saara. Naquele pouco tempo nos tornamos inseparáveis, e ajudávamos um ao outro, ele me ajudava com meu irmão e na busca pelo meu filho, enquanto eu segurava ele e seu problema com a bebida.”

“Meu pai era viciado em bebida? Isso explica muita coisa… Mas, por favor, continua a história ai.”

Foto: Creative Commons

Foto: Creative Commons

“Sim, seu pai era um alcóolatra, mas enquanto eu estive com ele foi controlado. A não ser na noite de Ano Novo, aquele dia a gente encheu a cara mesmo. Foi a pior ressaca da minha vida, mas valeu a pena esquecer os problemas por algumas horas.”

Os dois deram algumas risadas com as histórias daquela bebedeira. Histórias de bêbados são sempre engraçadas. Enfim, Baltazar contou como era vida deles catando lixo pelas ruas de São Paulo, cada história que só acontece com quem vive nas ruas. Uma vez eles tiveram que fugir da polícia, porque roubaram um lanche do McDonalds no Drive Thru, mas a polícia não teve nem chance, os dois conheciam a vizinhança melhor do que ninguém, até porque a sua casa era a cidade toda, e todo mundo conhece o seu lar como ninguém. O momento da vida dos dois teve seus dramas e suas comédias. Escaparam por pouco aqui e ali, mas deram boas risadas em momentos que outros estariam chorando. Juntos viam o mundo diferente do resto das pessoas, não se faziam de vítima. Pra eles o mundo era um parque de diversões.

“Seu pai era como um irmão pra mim. Nós éramos uma família. E para o seu pai a coisa mais importante do mundo é a família. E foi por causa disso que ele cometeu um erro, na verdade o pior de todos pra quem mora na rua.”

“O que ele fez?”

“Bateu em um policial. Era um cara novo na região, um policial inexperiente, era um ‘aspira’. E tinha sangue quente, por isso ele se irritou quando meu irmão não obedeceu ele. Meu irmão é demente, óbvio que não ia obedecer, só que o aspira não sabia, e deu uma cacetada nele. O Juca viu e se irritou, já chegou com um soco na cara do policial. Seu pai bateu tanto no aspira que ele teve que ir pra UTI, e provavelmente teria morrido se eu não tivesse contido seu pai. Ele parecia um touro. Eu nunca vi ninguém daquele jeito. Obviamente seu pai foi preso em flagrante e ta preso até hoje.”

“Meu pai ta preso?!?! Onde?! Eu preciso falar com ele!”

“Na penitenciária de Presidente Prudente. Há muito tempo eu não falo com ele, foi um pedido pessoal dele pra que eu não procurasse mais ele. Ele só me explicou o porquê da raiva dele naquele dia: ele tinha ido te buscar no orfanato, só que você tinha fugido. Foi nesse dia que ele me contou a história dele, a sua história Paulo. E me fez um único pedido, que se eu te encontrasse, te levasse até ele. Eu fiz uma promessa ao meu irmão de coração, e hoje posso cumpri-la.”

Já era madrugada em São Paulo, e Baltazar tinha ido dormir. Paulo ficou ainda no telhado, processando aquela onda de informações. Onda não, a metáfora mais adequada pra uma situação dessas seria uma tsunami. Mas não algo avassalador, ou destruidor, e sim surpreendente:

“É Esperança, meu pai ta vivo, e quer me ver. Só não entendo uma coisa, se ele preza tanto a família, por que me abandonou no orfanato? Tenho tantas perguntas, ainda quero saber da minha mãe, tanta coisa…”

Esperança subiu no colo de Paulo, como se compartilhasse da alegria de seu dono, mas ela logo pegou no sono enquanto era acariciada. Ele não. Paulo não conseguiu dormir, preferiu apenas se encostar na parede e ficar sonhando acordado com seu pai.

***

No dia seguinte os dois estavam prontos para partir bem cedo. Baltazar pegou as poucas economias que tinha e comprou duas passagens de ônibus para Presidente Prudente. Partiram. Algumas horas passaram, e Paulo tirou alguns cochilos por causa da noite mal dormida, mas a ansiedade o acordava de tempos em tempos. Chegaram. Viram uma fila para entrar no presídio, quase todas mães e esposas de presidiários. Algumas traziam filhos pequenos nos braços. Os homens ali dentro tinham criado famílias, mas também haviam destruído elas. Paulo chegou a se emocionar com algumas histórias que ouviu, mas ignorou as que insistiam que diziam que o preso era inocente, Paulo sabia, ninguém é inocente. Todos cometemos erros. Enfim, eles chegaram no dia anterior ao dia das visitas. Dormiram na fila – o que era uma noite mal dormida pra quem dormia na rua né.

Foto: FolhaPress

Foto: FolhaPress

***

As visitas eram rápidas, Paulo não teria muito tempo com seu pai. Será que ele o reconheceria? Aliás, como será rosto do seu pai? Um monte de coisa passou pela cabeça de Paulo, menos uma: pai e filho eram muito parecidos. Paulo era a versão mais nova de Juca, então quando se viram não houve dúvida, não houve hesitação:

“Filho.”

“Pai.”

“Eu pensei que isso nunca fosse acontecer. Você já é um homem e eu perdi tudo isso… Meu Deus… O Baltazar ta ai?”

“Ta lá fora…”

“Você deve ter um milhão de perguntas, eu não vou conseguir esclarecer todas elas agora. Mas eu preciso te contar o que aconteceu.”

Paulo estava pálido, de sua boca não saiam mais que algumas palavras monossilábicas, ele não tinha reação a nada do seu pai contava. Juca explicou que ele e Ana Bela – mãe de Paulo – tiveram um caso, e disso nasceu Paulo. Contou a história do parto em plena Praça da Sé. Paulo tinha uma pergunta simples:

“Como eu fui parar no abrigo do Tio Jefferson?”

“Foi pro seu bem, depois que você nasceu, a gente começou a morar em baixo de um viaduto na zona sul. Um dia um bando de moleques drogados nos atacaram, jogaram gasolina e colocaram fogo na sua mãe, eu consegui escapar e tentei salvar ela batendo num dos moleques. Eu consegui te salvar, mas a sua mãe faleceu, e tinha um problema, o babaca que eu bati era filho de um vereador da época. Eu tive que fugir daqui, e não podia leva você comigo, por isso te deixei no abrigo. Foi pra proteger o que restou da minha família”

Paulo ouviu atentamente ao relato do seu pai, e disse:

“Eu te perdoo.”

“É sério?!”

“É pra isso que serve a família não é? Pra cuidar uns dos outros. Você me salvou. Você é meu pai, por isso eu te perdoo. Não posso te perder de novo.”

O sinal tocou, o horário das visitas tinha acabado.

“Adeus, meu filho.”

“Nunca diga adeus. Até logo, a gente ainda vai se ver de novo, meu pai.”

Um abraço. Uma lágrima. E Paulo agora tinha um pai pra chamar de seu. Voltou pra casa, dormiu boa parte da viagem, é verdade, mas já esperava a próxima vez que pudesse ver seu pai de novo. Mal sabia ele que seria antes do que ele imaginava.

***

“Um motim na Penitenciária de Presidente Prudente causou a morte de dois policiais e de 17 presos. O que iniciou a rebelião foi uma suposta tentativa de fuga da penitenciária. As identidades não foram confirmadas, mas os nomes de dois presos mortos no incidente puderam ser confirmados: Joaquim Silva Neto e José Carlos dos Santos Pereira. Mais informações devem chegar a qualquer momento” – anunciava o Jornal Nacional.

Baltazar sabia, Juca era José Carlos dos Santos Pereira, mas não fazia ideia de como ia contar pra Paulo. Não foi necessário. Paulo entrou na sala de TV da ocupação no momento em que mostraram a foto dos presos mortos. Paulo estava desfigurado, perdera o pai que acabara de conhecer. Ninguém poderia saber o que passava na cabeça de Paulo. É indescritível, não cabe a ninguém tentar colocar isso em palavras.

Paulo saiu de casa enlouquecido, Baltazar conhecia aquele olhar, eram os olhos do Juca naquele dia de fúria. Paulo estava incontrolável, entrou em um bar, roubou uma pinga qualquer e saiu correndo – se embebedou ate não conseguir mais andar. Jogado na rua ele desabafou chorando compulsivamente:

“Me fala Esperança, por que eu não posso ter uma família?! Eu só queria uma família, um pai e uma mãe! É pedir muito?!”

Foto: Nozes na Frita

Foto: Nozes na Frita

Sem dúvida as histórias de criança eram mais reconfortantes, desde criança Paulo sabia que eram invenções de sua imaginação, mas muitas vezes acabava acreditando em suas próprias mentiras; ter um pai de mentira era muito melhor do que saber que seu pai estava morto. Seus sonhos de um pai herói a dura realidade destruiu.

Enquanto isso Baltazar levava Paulo arrastando-o para casa, e percebendo o quão parecidos pai e filho eram. Jogou ele no sofá e disse pra si mesmo:

“Seu pai era meu irmão, ele era minha família. Você faz parte dessa família, parte da minha família. E família cuida da família. Juca, onde quer que esteja, pode ter certeza, eu vou cuidar do seu filho como se fosse o meu. Família é pra sempre.”

[Cap. 3] Outra História

(Capítulo 2: Paulo vaga por São Paulo, sem destino, sem objetivo. Pede dinheiro na rua, até que tem a esperança de um lugar melhor pra ficar. E essa esperança é tirada dele – ou quase isso: http://paulosaopaulo.wordpress.com/2013/12/05/cap-2-final-feliz/)

Foto: Entenda os homens

Foto: Entenda os homens

Esperança era cachorrinha incrível. Daqueles vira-latas que acompanha seu dono de qualquer maneira, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, riqueza e na pobreza, no caso dos dois a história ficava só na pobreza mesmo, mas eles tinham seus momentos felizes, seja quando achavam um lanche no lixo, ou quando conseguiam um local “menos ruim” pra dormir – “menos ruim” pra não dizer que os locais em que dormiam eram bons ou melhores, porque ainda eram muito ruins.

Enfim, Paulo e Esperança viviam um matrimônio, uma amizade, ou seja lá qual for a definição da relação dos dois. O importante é que eram inseparáveis.

E Paulo continuava vagando por São Paulo, caçando um lanche aqui e ali, mas não estava mais sozinho, portanto tinha que conseguir mais comida, e mesmo quando conseguia pouco, dividia com ela. Em uma dessas caçadas na selva de pedras Paulo e sua fiel companheira encontraram um senhor, já com seus 50 e poucos anos, sentado na calçada, ao lado de uma carroça de lixo com uns desenhos bem legais, mas o homem estava com uma expressão de dor, e com a mão no ombro. Paulo se aproximou e foi falar com o homem:

“Ta tudo bem?”

“Acho que não, desloquei o ombro, ou coisa parecida. Ta doendo pra caramba, e não consigo carregar a carroça.”

Paulo olhou para o senhor sentado, para a carroça, e disse:

“Se eu te ajudar com a carroça, cada um fica com a metade do que a gente conseguir. Fechado?”

“Beleza. Mas antes de qualquer coisa, qual o seu nome?”

“Paulo. E essa aqui é a Esperança. E você, como chama?”

“Baltazar”

“Mas eai, me conta, como conseguiu essa carroça toda pintada ai!?”

“Isso foi um presente de Deus. Uns moços ai organizaram um evento que ajudou um monte de carroceiro. ‘Pimp My Carroça’, era esse o nome. Um negócio bacana, os caras arrumam a carroça e arrumam a gente também, tem exame médico, das vista, ganha camiseta e uma carroça totalmente reformada. Teve aqui em sampa, mas eu soube que teve no Rio e em Curitiba também.”

“Que legal cara! Esse mundo tem muita gente ruim, mas tem um povo bom também né…”

Foto: Pimp My Carroça

Foto: Pimp My Carroça

Enquanto isso, eles iam caminhando pela Avenida Rio Branco ‘catando’ o que poderia valer alguma coisa. Esperança ia em cima da carroça, curtindo o vento que batia. Cachorros convencionais ficam nas janelas dos carros, ela preferia o alto de sua carroça de lixo, muito mais emocionante. A conversa continuava entre os dois:

“Mas me conta, como chegou até aqui, tipo, como conseguiu essa carrocinha e tudo mais?”

“É uma longa história meu filho, quer mesmo que eu conte?”

“Temos o dia todo Seu Baltazar.”

“Eu nasci em 1957, morava em uma casa simples ali perto do Bom Retiro, tinha um vizinho judeu e tudo mais. Meu pai era um operário em uma fábrica de tecidos, e o seu salário era o nosso sustento, mas ele teve a infeliz ideia de se juntar ao sindicato. Não poderia ter outro destino… Quando eu tava na quinta série, cheguei da escola e vi minha mãe chorando: a ditadura militar tinha pego meu pai. Minha mãe já tinha avisado meu pai pra ele sair dessas coisas ai, que não tinha mais Getúlio ou João Goulart pra defender os pobres, e que os governo não tolerava oposição. Minha mãe era dona de casa, mas não era burra, ela tinha razão.”

“Nossa, sinto muito pelo seu pai, mas se sua mãe era dona de casa, como ela fez pra cuidar de você?”

“Vocês, no plural. Eu tenho um irmão, só que ele é retardado. Não sei o que ele tem exatamente, mas ele não faz muita coisa e eu tenho que cuidar dele sozinho. Enfim, minha mãe, se tornou mãe e pai ao mesmo tempo, mas não por muito tempo. Lembro até hoje, no meu aniversário de 18 anos, 21 de agosto de 1975, eu vi minha mãe morta, embaixo de um carro, ela morreu na hora, pelo menos não sentiu dor…”

A história foi interrompida pelos latidos de Esperança. Paulo olhou pra ela e depois pra frente, um carrinho de bebê corria pela rua. O morador de rua largou o carrinho e foi correndo para salvar o bebê. Ele agarrou a criança e saiu da rua, o carrinho foi destruído por um carro instantes depois. Paulo foi devolver a criança para a mãe. A mulher jogou cinco reais no chão e disse:

“Pega esse dinheiro ai pra você indigente”

Paulo olhou e respondeu calmamente:

“Eu não quero seu dinheiro madame desgraçada. Só esperava um pouco de gratidão pela vida do seu filho”

Paulo voltou à carrocinha como se nada tivesse acontecido e pediu pra Baltazar continuar a história.

“Você foi um herói agora há pouco, você sabe disso né. Enfim, foram tempos difíceis para nós, dormimos nas ruas, em albergues. Passamos fome, e fiz coisas que não me orgulho, mas não me arrependo de nada do que fiz. Fiz o que tinha que fazer para cuidar do meu irmão e nos manter vivos. Até que conheci Clarice, a mulher da minha vida. Vivi os melhores anos da minha vida com ela, foi com ela que consegui a carrocinha, e desde então não parei. Dei até aliança pra ela, e não foi roubada não, consegui a aliança quando uma mulher chorando jogou ela no chão. Peguei, mas não vendi, dei pra Clarice no nosso casamento. Fomos felizes, mais do que eu jamais imaginei que pudesse ser.”

“‘Fomos’? Não é mais? Onde essa Clarice ta?”

Foto: Publique Ideias

Foto: Publique Ideias

Um silêncio dominou os dois, mas o barulho dos carros e das buzinas mantinha a típica sinfonia metropolitana. Eles continuavam caminhando e recolhendo o que pudesse ser reciclado, Paulo atravessou a rua para ver alguns sacos de lixo jogados no chão, nesse curto período de tempo um homem tentou roubar as coisas da carroça dos dois. Baltazar bateu na cabeça do homem com um pedaço de madeira, e ele caiu inconsciente. Paulo assiste a cena e depois caminha até o carrinho do homem do chão, pega tudo que ele tinha que pudesse valer alguma coisa e vai embora.

Baltazar se surpreende com a reação de Paulo e olha nos olhos de Paulo, até conseguir um simples resposta:

“Ele merecia.”

“Isso é errado, não podemos fazer isso.”

“Ele ia fazer isso com agente, temos o direito de fazer isso com ele. Se você não gostou pode ficar ai cuidando dele, eu vou levar isso comigo, com ou sem você.”

Baltazar tira o homem do meio da rua, e, mesmo contrariado, acompanha Paulo até uma cooperativa de reciclagem chamada Coorpel na Rua 25 de janeiro, 274, no bairro da Luz.

***Depois de sair da cooperativa, eles tiveram um jantar razoável com o dinheiro da reciclagem – era muito melhor do que qualquer lanche do lixo que Paulo comia há dias. Baltazar olhou para o morador de rua e sua esperta cadela e perguntou:

“Onde você vai dormir?”

“Onde não chova. Deve ter alguma ponte aqui perto com espaço para mim.”

“Você pode dormir comigo essa noite, já está tarde, eu moro aqui perto em uma ocupação perto da estação. Não tem muito conforto, mas eu consigo um sofá pra você ela dormirem”

“Eu não costumo aceitar essas coisas, mas você parece um cara legal. Mas só por hoje.”

Os três foram andando até a ocupação. Chegando lá, Paulo viu um lugar de paredes inacabadas e banheiros improvisados, mesmo assim não se incomodou em tomar um banho de água fria – há tempos não tinha esse simples prazer. Depois foi para o telhado, se refrescar naquele vento. Lá de cima viu a cidade, a mesma de sempre, seus prédios, ruas, avenidas… Mesmo assim parecia diferente, aquele momento lembrou uma história que o Tio Jefferson lhe contou no orfanato. Era de um homem bem antigo, um tal de Heráclito – não tinha certeza do nome. a história era de que um homem ia ao mesmo rio, mas nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem. Fazia todo sentido, São Paulo era a mesma, mas Paulo não era o mesmo, agora ele tinha Esperança do lado dele, tinha passado por mil e uma coisas. Havia muito tempo desde que ele não parava pra observar a cidade, desde o dia que fugiu do orfanato em busca de seus pais. Nada havia mudado, ele ainda não tinha achado eles, ainda era o Paulo morador de rua, mas ao mesmo tempo era outro. Não era mais o menino frágil, e sim um homem forte. Ele poderia não ter mudado a cidade, mas São Paulo mudou ele.

Foto: Mendelson Tomé

Foto: Mendelson Tomé

Esse pensamento foi interrompido quando Baltazar encostou no seu ombro e sentou ao seu lado:

“A Luciana é enfermeira, ela disse que não é nada grave, meu ombro deve ficar bom em alguns dias.”

“Que bom, saiba que os hospitais públicos são piores do que eu imaginava. Por isso, evite tomar tiros.”, disse Paulo com um tom meio risonho, fazendo brincadeira com ocorrido há algum tempo atrás.

Baltazar não entendeu muito bem aquela história de evitar tiros, mas enfim, queria dizer outra coisa para Paulo.

“Paulo, quero te contar o que aconteceu com a Clarice. Nunca contei isso a ninguém, e quero que isso fique entre a gente. Como eu disse, nós nos amávamos, morávamos juntos, não aqui, mas em qualquer lugar, andávamos por São Paulo atrás de locais “melhores” pra passar a noite. Do nosso amor nasceu um garotinho. Um presente divino, mas também o início do resto da minha vida. Clarice morreu no parto. Eu fiquei com meu irmão e meu filho para cuidar e com lágrimas nos olhos. Guardo a aliança até hoje – tira o anel do bolso – ela mantém viva em mim a imagem de Clarice. Enfim, eu não podia cuidar de uma criança sozinho, então deixei meu filho no orfanato, e anos mais tarde eu voltei para buscá-lo, mas ele tinha fugido. Desde então procuro por ele, um menino que já deve ser homem hoje. Mais ou menos com a sua idade… Se é que ainda está vivo.”

Paulo já estava com lágrimas nos olhos, a história mexeu com ele, e era estranhamente parecida com a dele. Ele passou a infância no orfanato, e fugiu de lá em busca de seus pais. Não conhecia seu passado, só sabia que tinha sido abandonado ainda bebê no orfanato do Tio Jefferson, quem considerava mais que um pai. Calma. Não podia ser. E se Baltazar fosse seu pai? A idade batia, a história era a mesma… Não podia ser. Não era possível. Poderia uma outra história, ser a sua história? Sem pensar duas vezes a pergunta veio:

“Você é meu pai?”

“Não… Mas eu sei quem ele é.”

[Cap.2] Final Feliz

(Capítulo 1: Paulo toma um tiro e é levado para a emergência, questiona sua vida, seus atos e sem encontrar respostas, pega no sono: http://paulosaopaulo.wordpress.com/2013/12/01/cap-1-um-dia-a-mais-uma-dia-a-menos/)

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Foto: Portal Guardião

“Ou, levanta daí!”

Paulo acordava lentamente, não tinha dormido quase nada. Aliás, nem tinha amanhecido ainda. Paulo nem tinha aberto os olhos direito.

“Vai logo! Sai da minha frente seu vagabundo!”

Paulo abriu os olhos e enxergou um homem não muito alto, já com certa idade, uns 40 ou 50 anos. Antes que esboçasse qualquer resposta, levou um chute na costela. Sim, na costela que tinha levado um tiro há algum tempo. A dor fez Paulo acordar imediatamente

“Se não sair vai levar outro!”

Paulo levantou, olhou nos olhos do senhor que o expulsou e questionou:

“Quem é você?”

“Sou o dono dessa loja que você estava na frente. Vocês são todos iguais, é só a gente deixar o espaço livre por alguns dias e você já se acham donos de tudo! Agora sai da minha frente senão eu chamo a polícia!”

Paulo olhou nos olhos daquele homem, mas preferiu não responder, virou as costas e foi embora, sem saber muito bem pra onde ia, mas foi embora do mesmo jeito. É estranho pensar sobre o ato de vagar em uma cidade como São Paulo, ir andando sem destino, sem objetivo. Ir caminhando vendo as pessoas passarem rapidamente, falando no celular, algumas indo para o trabalho, outras indo estudar, e outras fazendo tudo ao mesmo tempo, mas sempre com um destino. Vagar é caminhar sem destino, e, por mais simples que essa definição possa parecer, entender como isso ocorre não é tão fácil assim.

Pensar sobre o que está fazendo não é o forte do ser humano, deve ser por isso que moradores de rua se limitam a passar o dia pedindo esmola em uma esquina ou praça, porque pedir esmola tem um objetivo, uma finalidade, vagar por ai não tem fim. E sem final o meio não faz sentido. Mas Paulo, que nunca foi muito chegado em pensar muito sobre as coisas, seguia caminhando sem destino na Avenida Vinte e Três de Maio.

Sem destino até que seu estomago criou um objetivo para Paulo: conseguir comida. O Sol começava a aparecer e sua barriga a fazer barulhos cada vez mais altos pedindo qualquer coisa pra matar a fome. Quando o “andarilho” passou pelo Viaduto da Beneficência Portuguesa na Zona Sul, lembrou que tinha uma bar/lanchonete ali em cima que lhe deu um misto quente há algum tempo atrás. Subiu no canteiro da avenida, escalou a leve inclinação pra chegar na Vergueiro, passou na frente do Centro Cultural São Paulo, desviou de algumas crianças que corriam na praça ali em frente, e enfim atravessou a rua para chegar ao bar.

Paulo se encostou no canto do balcão para não chamar a atenção e explicou a sua situação ao atendente. Veio o dono da lanchonete com um prato de comida e uma lata de Pepsi.

“Não trabalhamos com Coca Cola, só tem Pepsi, pode ser?”, brincou Seu Gabriel, dono do bar.

A risada foi inevitável, mas também não foi duradoura, a fome era muito grande, e o prato parecia um manjar dos deuses para alguém faminto. Para Paulo cada refeição era última, até porque nunca sabia quando conseguiria outra, o morador de rua foi tão voraz para comer que até se engasgou e precisou tomar um gole de sua Pepsi, e deu um sorriso lembrando a piada de Seu Gabriel, que pra ele não fazia muito sentido – ele nunca tinha visto o comercial do refrigerante – mas que mesmo assim era de alguma forma engraçada.

Alguns poucos minutos depois o prato já estava vazio. Seu Gabriel ofereceu mais, até perguntou se queria sobremesa. Paulo recusou, mas agradeceu imensamente e saiu.

“Que Deus lhe pague!”

“Deus não paga nada a ninguém, muito menos dá. Você melhor do que todas as pessoas deve saber que se queremos alguma coisa devemos lutar por ela. Boa Sorte, e volte sempre que precisar!”

Paulo parou por alguns instantes para pensar no que Seu Gabriel disse, fazia sentido. Fazia todo sentido! Só tinha um problema, ele não fazia ideia de por onde começar a lutar. Arranjar um emprego? Não sabia ler ou escrever, quem iria emprega-lo?!. Conseguir um lugar pra morar? O dinheiro do emprego seria mais do que necessário para pagar um aluguel. Diversas coisas passaram pela sua cabeça, lícitas e ilícitas. Até aquele momento tinha andado alguns quarteirões, estava próximo ao metro São Joaquim, descendo pela Vergueiro, pegou então uma caixinha que achou no lixo e fez o simples: sentou no chão e começou a pedir esmolas aos que passavam. Apressados, a maioria nem o notava, ou faziam a clássica cara de nojo.

Ali passou algumas horas.

***

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Foto: Metro SP

No final da tarde, um garoto, tinha uns 18 anos aproximadamente, se aproximou de Paulo e disse que não podia ajuda-lo, mas conhecia um local que podia: o Instituto Lygia Jardim. Era um albergue assistencial, e lá Paulo poderia ter um local confortável pra dormir, além de higiene, e o melhor não era muito longe dali, o lugar ficava na R. São Domingos, na Bela Vista. Paulo agradeceu o garoto e foi em direção ao albergue.

Era uma casa antiga, bem cuidada, mas já desgastada. Paulo bateu na porta. Nada. Bateu palmas. Nada. Gritou. E finalmente alguém atendeu, era uma senhora. Paulo já começou a pensar que seria sua primeira noite em uma cama desde muito tempo, imaginou um banho de água quente, nada luxuoso, mas para ele era o paraíso. Mas a mulher foi direta:

“Fechamos às 17h e não temos mais vagas.”

Paulo viu a porta fechar, e levar com ela a sua esperança. Seria apenas mais uma noite na rua, mais uma de tantas. Mas não era a mesma coisa, até poucos segundos atrás ele tinha esperança, e agora… Agora não tinha nada.

Sentou no chão e chorou. Incontrolavelmente. Não sabia se era tristeza ou raiva. Não sabia se chorava pelo momento, ou pela sua infância no orfanato. Chorava pelas inúmeras famílias que iam até o abrigo onde morava, mas nunca o escolhiam. Chorava pelas crianças mais velhas que o batiam. Chorava pelos erros que já cometeu. Chorava.

Paulo levantou e começou a vagar de novo, sem rumo, sem objetivo. Um latido chamou a sua atenção, vinha de uma casa do outro lado rua. Um homem maltratava sua cachorra, só que ela conseguiu fugir, e seu dono veio atrás dela. Paulo interviu, arremessou o dono na parede, ameaçou um soco e repetiu as palavras que ouvira de manhã:

“Vai logo! Sai da minha frente seu vagabundo!”

O dono abandonou sua cachorra e foi pra casa esbravejando:

“Pega pra você esse cachorro de merda! Não me obedece essa cadela desgraçada!”

Paulo pegou-a no colo e deu a ela o nome que lhe veio na cabeça: Esperança. Era daquilo que ele precisava, de esperança, e aquela cadela indefesa trouxe um sorriso ao triste mendigo. Ela era a Esperança de que ele precisava.

Orson Welles disse uma vez que “Se você quer um final feliz, depende de onde irá parar a história”, e ele estava certo. Para Paulo a história terminava aqui, mas São Paulo tinha outras histórias para colocar na vida de Paulo. Mas por enquanto, tenhamos um pouco de esperança. As coisas podem melhorar.

Foto: Pet Care

Foto: Pet Care

[Cap. 1] Um Dia a Mais, Uma Dia a Menos

Foto: Imagens USP - Marco Zero de SP

Foto: Imagens USP – Marco Zero de SP

Braços meio abertos, estirado no chão, olhos fechando…

“3, 2, 1… ZZZ! Carregar a 150!”

Ali estava Paulo, só Paulo, sem sobrenome. Ele havia acabado de tomar um tiro enquanto tentava evitar um assalto em plena Praça da Sé. Algum desconhecido tinha discado o 192 e chamado o SAMU para um morador de rua: surpreendentemente normal. Como é de costume, a ambulância demorou muito além do aceitável para algo que salva vidas, a sorte de Paulo é que o tiro não perfurou seu corpo completamente, mas o sangue saía, e a hemorragia ia enfraquecendo o herói. Até que seu coração parou, o anônimo mendigo morria na sua ação de justiceiro.

O paramédico fazia tudo que podia: massagem cardíaca, respiração por equipamentos, desfibrilador… Tum! De repente, o ex-morto estava vivo. “A pulsação voltou! Pra ambulância!”, gritava aquele que acabara de salvar mais uma vida, era o seu trabalho, e não tinha tempo a perder. Na maca, Paulo, acompanhado pela equipe formada por dois homens e duas mulheres, ia em direção ao Hospital das Clínicas, o hospital público mais próximo, e para onde normalmente levam os indigentes que precisam de assistência médica. Estamos em São Paulo, a “viagem” não foi tão rápida assim.

Chegando ao hospital, Paulo foi tirado da ambulância ainda inconsciente.

“Esse é pra emergência, tiro na segunda costela direita. O projétil não está alojado, possível perfuração de órgãos, ta com hemorragia.”

Não é surpresa nenhuma que Paulo não foi atendido na hora. Justiça seja feita, uma médica ia checa-lo quando chegou uma vítima de acidente de moto ocorrido na Vergueiro. Era domingo e o motoqueiro atropelou um ciclista na faixa exclusiva que só existe aos domingos, o problema é que um carro atropelou a vítima enquanto ela se levantava do primeiro acidente. Ele sobreviveu, mas não por muito tempo, não durou 15 minutos no hospital. Os médicos estavam ali pra trabalhar e salvar vidas, não tinham tempo a perder. A médica voltou para o colchonete onde estava Paulo, que agora já estava acordado, mas não completamente consciente.

A bala não havia perfurado nenhum órgão vital, a médica cauterizou o ferimento, deu alguns pontos e pediu pra que ele assinasse um documento pra que fosse liberado.

“Qual o seu nome?”, perguntou a médica.

“Paulo”, respondeu ainda meio desnorteado.

“Paulo do que?”

“Só Paulo, senhora, tenho sobrenome não.”

“Ta bom então, assina aqui e pode ir embora.”

“Mas eu não sei escrever não senhora.”

“Como não?! Olha, você ta bom, não ta? Pode embora que eu me viro aqui.”

“Ta bom… Muito obrigado e que Deus te abençoe!”

A médica, sem dar ouvidos à última frase de seu paciente, falsificou uma assinatura e logo foi para o próximo paciente: uma senhora idosa quebrara a perna enquanto andava em uma calçada da Liberdade – algo mais que comum em uma cidade onde pior que os buracos nas ruas, só as calçadas, ou a falta delas. Paulo saiu do hospital, e percebeu que algumas horas passaram desde sua morte e volta à vida. Foi caminhando de volta até a Sé, onde foi baleado mais cedo, mas onde também chamava um canto de lar.

Alguns minutos de caminhada mais tarde, ele chegou à praça. Deparou-se com nada. Suas poucas coisas haviam sido roubadas. Escurecia e seu peito ainda doía. A médica que não podia perder tempo não fez o curativo direito, mas ele se recuperava bem.

Paulo procurou pedaços de papelão em lixeiras próximas, mas não achou nada. Viu então uma mulher, trinta e poucos anos, mas aparentava ter muitos a mais – culpa das noites mal dormidas na rua. Paulo, atordoado pela dor, não pensou duas vezes em roubar o papelão/cama dela. Isso mesmo, roubar.

Paulo olhou em um relógio da praça, ele marcava 22:30, então ajeitou a sua “recém-adquirida cama” em frente a um comércio e deitou-se. Demorou alguns minutos para que pegasse no sono. Nesse curto período de tempo passou em sua cabeça um lampejo de questionamentos, pensou que no mesmo dia passara de herói a vilão, mas também pensou que quando agiu “certo” tomou um tiro, e que quando agiu “errado” ganhou um lugar mais confortável pra dormir. Os valores, a ética… Aliás, o que significava essas palavras? Paulo nunca entendeu muito bem o sentido delas. No seu mundo elas não valiam de nada, o que valia era ter um papelão pra dormir e um pouco de comida pra não morrer de fome.

Foto: Fernando Fernandes

Aos poucos o seu pensamento foi diminuindo, e antes que pudesse se sentir culpado ou beneficiado, pegou no sono, e a única coisa que restou em sua mente foi o pensamento de que a vida é do jeito que é, sem mais, nem menos.

Mas o que não passava pela cabeça desse morador de rua é que era dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, e também seu aniversário. Há vinte e tantos anos (ninguém sabe ao certo quantos anos Paulo tem), em uma noite quente de verão, sua mãe dava a luz a Paulo, naquela mesma praça onde há o marco zero da cidade. A mãe escolheu o nome ao ver um cartaz do aniversário da cidade. Paulo e São Paulo nasceram no mesmo dia e no mesmo lugar – ou quase isso.

Mais um dia. Mais um aniversário, mas nem Paulo, nem São Paulo sabiam que era um dia especial pra eles. Para o médico que salvou a vida do mendigo, para a médica que assinou por ele, para a mulher que passou apressada e não percebeu o assaltante se aproximando, para o próprio assaltante, para todos eles não havia tempo a perder. Nunca se há tempo a perder em São Paulo. Mas Paulo, no meio dessa confusão chamada São Paulo, perdeu um dia. Perdeu o seu dia. Apenas mais um dia.

E terminou seu dia da mesma maneira que começou, como se nada tivesse sido perdido:

Braços meio abertos, estirado no chão, olhos fechando…

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